O Impecável
"Um homem que dorme tem em círculo à sua volta o fio das horas, a ordem dos anos e dos mundos. Consulta-os instintivamente ao acordar, e neles lê num segundo o ponto da terra que ocupa, o tempo que decorreu até ao seu despertar; mas as respectivas linhas podem misturar-se, quebrar-se." Marcel Proust, Em Busca do Tempo Perdido



Os Impecáveis









Blogues obrigatórios

A arte da fuga
Adufe
Almocreve das Petas
Blasfémias
Bloguitica
Casa dos Comuns
Causa Nossa
Cum grano salis
Grande Loja do Queijo Limiano
Impostos?
Irreflexões
Muito à frente
O Acidental
O Insurgente
O Jansenista
Peço a Palavra
República Digital
Tabacaria
Tugir
Uma Campanha Alegre


Leituras recentes

Direitos sem deveres? Re(in)flexões
A extinção dos benefícios fiscais em números: PPR'...
Bom fim de semana!
Voto electrónico...
Andar de cavalo vs. Andar a cavalo
Passes sociais
Colocações de professores - o dia seguinte...
Exmos. Governantes...
Descubra as diferenças...
"Os Direitos Humanos e o 25 de Abril: o que foi fe...



Arquivos

09/01/2004 - 10/01/2004
10/01/2004 - 11/01/2004
11/01/2004 - 12/01/2004
12/01/2004 - 01/01/2005
01/01/2005 - 02/01/2005
02/01/2005 - 03/01/2005
03/01/2005 - 04/01/2005
04/01/2005 - 05/01/2005
05/01/2005 - 06/01/2005
06/01/2005 - 07/01/2005
07/01/2005 - 08/01/2005
08/01/2005 - 09/01/2005
09/01/2005 - 10/01/2005
10/01/2005 - 11/01/2005
11/01/2005 - 12/01/2005
01/01/2006 - 02/01/2006
03/01/2006 - 04/01/2006
04/01/2006 - 05/01/2006
10/01/2006 - 11/01/2006
11/01/2006 - 12/01/2006
02/01/2007 - 03/01/2007


Contacto



Technorati search


Site Meter

on-line

|


domingo, setembro 26, 2004

Ronald Reagan: Um (esquecido) Herói do Nosso Tempo



Posted by Hello


Ronald Wilson Reagan morreu em 5 de Junho de 2004, na véspera do sexagésimo aniversário do desembarque aliado na Normandia. Lamenta-se o seu desaparecimento, esperado que era há muito o seu resgate à Doença de Alzheimer. Quanto ao título desta evocação, furtou-se a esse outro esquecido vulto da política portuguesa e europeia: Francisco Lucas Pires. Este escreveu há anos, num suplemento especial do Independente, um belo elogio de Reagan, cujo mote ora se recupera.
Numa altura em que a Velha Europa deriva no Atlântico, afastando-se suicidariamente dos EUA, e enveredando por sentimentos primários de ressabiamento – imbuídos de uma latente inveja da liderança económica e política americana – é fácil radicar a incompreensão continental pelos grandes desígnios da América do nosso tempo na sua deturpada visão de Reagan.
A Velha Europa, ainda muito refém do seu elitismo e presunção de superioridade cultural, literalmente esnobou do presidente mais adorado dos EUA, ridicularizando-o e reduzindo-o à caricatura de político-actor. Pura incompreensão do mestre ancião que vê o seu jovem discípulo ultrapassá-lo, e se mostra ainda incapaz de apreender o essencial da experiência americana, esse radical fascínio, para tantos dos mais deserdados em qualquer parte do mundo, que o Green Card continua a exercer.
Longe da espessura intelectual de folha de papel que lhe imputam, Reagan é dos personagens políticos mais complexos da segunda metade do século XX: começou por ser Democrata antes se converter ao Republicanismo, era divorciado e filho de um pai com problemas de alcoolismo, mas exprimia uma fé inabalável nas virtudes da família; tinha origens muito humildes, mas nunca alentou ressentimentos contra os ricos; raramente ia à missa, mas veiculava e defendia uma religiosidade profunda; era um excelente cómico e orador de improviso e não apenas um bom leitor de discursos encomendados. Muitos ignoram certamente os primeiros termos desta contraposição.
Como Presidente, não era especialmente trabalhador, acusava o peso da idade, e dizem os próximos que dormia mais do que os seus antecessores. Mas fez o podia fazer de melhor: inspirar uma nação inteira com os seus discursos, transmitir-lhe esperança com o seu humor, mostrar-lhe respeito nas suas variadas peregrinações. Estava solidamente alicerçado na América profunda, que o reelegeu esmagadoramente, e encarnou-a ainda, no Rancho del Cielo onde esgotou a sua existência.
Não se prostituiu politicamente, prometendo o que sabia de antemão não ir cumprir. Quando em eleições afiançou reduções de impostos cumpriu-as, mesmo sob a crítica de estar a beneficiar os mais ricos e prejudicar o défice orçamental. Como é diferente de outros… Estes, até como meros actores credíveis muito teriam a aprender com Reagan.
Também na política internacional Reagan foi um vencedor nato. Recuperou, como ninguém, o excepcionalismo de inspiração wilsoniana, brilhantemente exposto por Kissinger na sua Diplomacy: era um crente nas virtudes universais da liberdade política e económica, em que investiu um desavergonhado proselitismo. Arriscou forte e não desiludiu. Ao ameaçar com a Guerra das Estrelas contra o Império do Mal ganhou a Guerra-Fria e iniciou o desarmamento nuclear, num dos mais bem sucedidos bluffs da história. A sua espada foi forte, mas mais forte ainda foi a sua pena: era o Great Communicator.
Como conviria hoje à Alemanha lembrar o amigo americano que, com mísseis soviéticos apontados à MittellEurope, teve a coragem de dizer “There is only one Berlin” e “Mr. Gorbachev: tear down this wall”, bem como de visitar o cemitério de Bitburg, onde jaziam, entre dois mil mortos de guerra alemães, quarenta e oito oficiais das SS Nazis, ajudando uma nova geração de germânicos na redenção do opróbrio. Tal como à França, essa grande herdeira da tradição de intriga e hipocrisia política de Richelieu, seria útil a recordação das palavras de Reagan, proferidas na Normandia, aquando do quadragésimo aniversário do desembarque em Omaha Beach: “We will always remember. We will always be proud. We will always be prepared, so we may always be free”. Quando dois terços dos alemães, em sondagem recente, confessam nenhuma dívida sentir pela ajuda americana à reconstrução e reunificação alemã, e em França florescem os panfletários anti-EUA, bem se pode dizer que o dia do favor é a véspera da ingratidão.
Ronnie, designação carinhosa e tributário do amor do seu povo, encarnou o melhor do idealismo americano: por isso é tão querido pelos que partilham do American Dream, por isso foi tão ressentido por quem é, cada vez mais, uma potência de segunda categoria. A nação americana, generosamente, desculpou-lhe até o escândalo Irão-Contras: era o “Teflon President”, nada o atingia, pois estava-lhe já reservado um alto lugar no panteão. Continuou ainda, na sua pátria, a receber constantes lembranças: o seu nome consagra há já vários anos o aeroporto de Washington e em 2002 recebeu a Medalha de Ouro do Congresso. Fora dos EUA, a popularidade de Reagan será certamente maior entre o baixo operariado de Gdansk que apoiou nos dias difíceis da luta pelo sindicalismo livre do que nas altas chancelarias franco-alemãs. Não podia estar melhor acompanhado, portanto.
Reagan, nas palavras de Francisco Lucas Pires, “é mesmo um dos grandes fundadores do actual futuro”. Ele legou-nos um mundo mais próspero, mais livre, e necessariamente mais complexo. Esse é o nosso mundo. Este é o Mundo de Reagan.


O Liberal | domingo, setembro 26, 2004 |

|
A ler

Patrick Gaumer, Le Larousse de la bande dessinée



Correspondence Between Stalin, Roosevelt, Truman, Churchill and Attlee During World War II



Dietrich Schwanitz, Die Geschichte Europas



Dietrich Schwanitz, Bildung - Alles war man wissen muss



Niall Ferguson, Virtual History: Alternatives and Counterfactuals



Niall Ferguson, The House of Rothschild: Money's Prophets 1798-1848



Niall Ferguson, House of Rothschild: The World's Banker, 1849-1998



Joe Sacco, Safe Area Goradze



Joe Sacco, Palestine



Hugo Pratt, La Maison Dorée de Samarkand



John Kenneth Galbraith, The Affluent Society (Penguin Business)



Mary S. Lovell, The Sisters - The Saga of the Mitford Family (aconselhado pelo Jansenista)



Charlotte Mosley, The letters os Nancy Mitford and Evelyn Waugh (aconselhado pelo Jansenista)



Ron Chernow, Alexander Hamilton



Henry Fielding, Diário de uma viagem a Lisboa



AAVV, Budget Theory in the Public Sector



JOHN GRAY, Heresies: Against Progress and Other Illusions



CATHERINE JINKS, O Inquisidor, Bertrand, 2004



ANNE APPLEBAUM, Gulag: A History of the Soviet Camps, Penguin Books Ltd, 2004



António Castro Henriques, A conquista do Algarve, de 1189 a 1249. O Segundo Reino



Philip K. Dick, À espera do ano passado



Richard K. Armey e Dick Armey, The Flat Tax: A Citizen's Guide to the Facts on What It Will Do for You, Your Country, and Your Pocketbook



Jagdish N. Bhagwati, In Defense of Globalization, Oxford



Winston Churchill, My Early Life, Eland




A ver

Eraserhead (um filme de David Lynch - 1977)


Eraserhead (1977) Posted by Hello

Nos meus lábios, JACQUES AUDIARD, 2001



A Tua Mãe Também, ALFONSO CUARON, 2002



Pickup on South Street, SAMUEL FULLER



The Bostonians, JAMES IVORY (real.)



In the Mood for Love, KAR WAI WONG, 2001



Powered by Blogger